21 de abr de 2010

HipHop: o que fazer?

Ninguém me ensinou a escutar Rap. Pelo menos em casa, não. Meu pai em casa tinha vinis de Samba e MPB. Minha mãe gostava de escutar Roberta Miranda ou Alcione, enquanto preparava o almoço. O ano era 1996. Fui apresentado a esse gênero musical controverso, envolvente, o mais "negro dos gêneros musicais" pelo meu tio, branco e policial. Naquele tempo, o rap brasileiro era de letras longas, batidas lentas e muita, muita contestação. A polícia era alvo de críticas pelos rappers nacionais. Nos EUA, imperava a guerra entre Costa Leste e Costa Oeste. Esta, capitaneada por Tupac e Suge Knight; aquela por Notorious e Puff Daddy (hoje conhecido como Diddy).

Voltando ao assunto, meu tio chegou na minha casa, depois de um plantão no batalhão, com uma fita-cassete. Era o equivalente ao CD ou ao pendrive cheio de músicas, nos dias de hoje. Disse que era para eu ouvir. Não hesitei um segundo e coloquei no aparelho de som da sala. O dia estava nublado e era feriado. Não me recordo qual. Apertei play e o que ouvi foi uma guitarra pegajosa com um "wooow" no fundo, dando o compasso para as rimas pesadas e realistas do rapper. A música? "Homem na estrada", dos Racionais Mc's. Foi o suficiente para fazer uma transformação na minha vida. Mudei o cabelo, as roupas, a linguagem, os gestos, tudo havia mudado com o rap.

O tempo foi passando, fui conhecendo outros grupos, comprando CDs, pesquisando biografias, samples, etc... Tudo que fosse relacionado ao rap, uma das vertentes da cultura HipHop. O HipHop ainda abrigava em seu seio o MC (Mestre de Cerimônia), DJ, Graffite e mais tarde o Beat-Box. O rap não era somente um estilo musical. Era a voz de um povo oprimido pela escravidão, pela segregação e pela exclusão social. Representava a identidade, o visual, a linguagem e a forma de comunicar com o seu público.

Se o rap teve um período de ouro, esse período foi de 1992 a 1997. Durante esses 5 anos, o mundo conheceu gênios como Tupac, Notorious BIG, Nas, Dr. Dre, Ice Cube e Jay-Z, apenas para citar alguns. Acordar com "Today Was a Good Day" (Ice Cube), ir para o colégio cantarolando "Can't Knock The Hustle" (Jay-Z), fazer o dever de casa com "Juri Popular" (Racionais Mc's) e dormir ao som de "One Love" (Nas) é privilégio de poucos.

Segundo período de ouro? 

Em 1997, o rapper Notorious BIG foi morto em Los Angeles, pondo fim ao período de ouro do rap. A partir daí, o gênero entrou num período de ostracismo e só veio ter o "boom" novamente em 2003, quando surgiu na cena uma figura chamada 50 Cent. Resgataria as crônicas das ruas, como já havia feito Nas e Jay-Z em outros tempos, mas com uma novidade: o produtor era da Costa Oeste. Seu nome? Dr. Dre. Um rapper de Nova York com um produtor de Los Angeles seria impensável nos tempos de ouro, mas em 2003 isso era possível.

A tática rendeu frutos. O CD Get Rich or Die Tryin' (Fique rico ou morra tentando) vendeu 6,5 milhões de discos naquele ano e ficou em 1º lugar nas paradas de sucesso durante semanas. O mesmo pode se dizer do rapper Eminem, que no mesmo período vendeu 7,6 milhões de cópia com seu álbum, The Eminem Show. Foi o período em que o rap ganhou grande destaque na mídia e era parada obrigatória nas festas de aniversário, no churrasco com os amigos, nos bailes de formatura e nas boates de "bacana". Ser negro ou negra era sinônimo de atitude, de ser chique, diferente. Tínhamos uma identidade visual, uma linguagem própria, dinheiro. Tudo isso o rap proporcionou aos jovens negros em todo o mundo.

HipHop está morto? 

Toda aquela beleza, aquela "frênesi" que o rap adquiriu ao ser expôr na mídia, mais cedo ou mais tarde teria o seu preço. Durante o período de 2005 e 2006 não se ouvia mais rap nas rádios, as músicas usavam a mesma fórmula, as mesmas batidas e os clipes eram muito parecidos. Originalidade zero. Em 2006, o rapper Nas deu entrevista para a MTV-EUA, durante o lançamento do seu álbum, HipHop is Dead  (O HipHop está morto). Justificando a escolha do título, ele disse:

“Quando eu digo que ‘O Hip-Hop está morto’, basicamente a América está morta. Não temos mais voz política. A música está morta, nossa forma de pensar morreu e o nosso comércio também. Tudo nessa sociedade se esgotou."

Quando eu li essa declaração, uma lágrima quase escorregou pelo rosto. O gênero que aprendi a amar, apreciar, que defendi com unhas e dentes, poderia "morrer"? Morrer talvez fosse exagero, mas como um paciente, ele estava na UTI, agonizando. Em 2006, nenhum álbum apareceu entre os 10 mais vendidos, sendo que o campeão de vendas daquele ano foi o CD do filme High School Musical, com 3,7 milhões de cópias. A queda nas vendas foi de aproximadamente 21%. O rapper Mims, que se dizia "quente", com sua música "This Is Why I'm Hot (É por isso que eu sou quente/gostoso) vendeu 630 mil cópias. O que dizer? Literalmente, um "banho de água fria".

Renovação


Procuro nos jornais, na internet e nas ruas os motivos para compreender o porquê de tanto declínio. Eu, de minha parte, apego aos "mestres" do período de ouro e procuro apreciar os atuais, que estão chegando com suas propostas, mas sem perder a essência. Nomes como Lupe Fiasco (Chicago), J. Wells (Los Angeles) The Alchemist (Nova York/LA) são alguns da nova vertente do rap, que estão dando os primeiros passos para criar um novo período de ouro. Enquanto isso, aguardamos o ressurgimento de novos Tupacs, Jay-Zs, Nas e Notorious.

Nenhum comentário:

Postar um comentário