29 de nov de 2010

Cava: três propostas para o caos no Rio de Janeiro

Publico excelente texto de Bruno Cava, do blog Amálgama.

De forma coloquial, direta e objetiva, ele analisa os problemas da Segurança Pública no RJ e arrisca algumas soluções.

Vale a pena conferir a leitura! O original está linkado abaixo, no nome dele.

Eduardo Pessoa

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Três propostas para o caos no Rio de Janeiro
Bruno Cava

Policiais no alto do Alemão: a guerra é mais embaixo.
Quinta passada, dia 25, eu estava num barzinho depois do expediente, quando vi pela primeira vez a filmagem da fuga desabalada de moradores do morro, que corriam por uma estradinha de terra batida entre duas favelas aqui do Rio. Tentavam escapar da favela Vila Cruzeiro, que estava sendo invadida pelas forças do estado. Durante a correria, dava pra ver várias pessoas sendo alvejadas por policiais de tocaia na mata (ou em helicópteros). E ninguém ajudava, elas ficavam pra trás, desamparadas e agonizantes.

Achei triste a cena, mas as pessoas a meu redor exultavam: “bandido tem mais é que morrer”, “BOPE neles!”, “tem que botar o exército pra acabar com esses vagabundos”. Nem no atentado de 11 de setembro nos EUA, presenciei tamanho deleite da maioria diante de cenas de execução. Os espectadores chegavam a salivar. Reviravam os olhinhos. Uma catarse.

Natural que crises assim provoquem um clima de euforia pela cidade. Admito que parte de mim também se empolga em tempos de comoção. Afinal, arranca-nos da rotina e confere vibração à existência. Porém, não dá pra engolir a execução sumária televisionada ao vivo e a cores e aplaudida como se fosse uma cena do filme Tropa de Elite.

Eu sei que pedir um olhar crítico da televisão brasileira seria sonhar alto demais. Mas irrita os programas sequer informarem sobre o que está acontecendo. Tipo, pelo menos descrever os fatos. Limitam-se a exibir as cenas sob manchetes inflamadas, com direito a rostos consternados de âncoras e repórteres. A situação fica posta nos termos maniqueístas mais ignorantes, como se fosse uma guerra do bem contra o mal, do estado bonzinho versus os bandidos maus, do cidadão de bem reagindo ao traficante do mal.

O jornalismo brasileiro dos principais veículos tem que acabar. Prevalece a exaltação à violência do bem contra a barbárie do mal. Repete-se o discurso do medo e da guerra, o fundamento de toda tirania. Moraliza-se um debate que é político. Ora, a violência urbana não é causada pela maldade na cabeça de algumas pessoas, mas por fatores sociais, econômicos, históricos, que condicionam as relações de poder e produzem a violência na metrópole.

Esse discurso midiático rasteiro, reproduzido acriticamente por tantos em suas micromídias (rodinhas, tuíter, facebook), pretende unificar a sociedade numa cruzada do bem contra um inimigo comum. Porém acerta gigantes imaginários. Porque não existe nenhuma relação de causa e conseqüência entre a) invadir uma favela e “passar o rodo nos soldados do tráfico” e b) assegurar a segurança aos cidadãos do asfalto. Não preciso me delongar nisso, porque o Luiz Eduardo Soares escreveu com pena de ouro sobre o pastiche midiático na questão da violência urbana, em texto de quarta passada (dia 24) no seu blogue.

No boteco, sem agüentar mais, me senti novamente obrigado a discordar do que todos já tinham se posto em acordo. Se não for pra isso, então não sirvo pra nada.

Como assim, tocaiar as pessoas fugindo? Isso não é pra aplaudir, mas pra vaiar. Uma coisa é responder fogo com fogo, reagir num tiroteio pra se salvar. Outra é tocaiar um grupo se retirando do campo de batalha em desespero. Os caras não foram só mortos, eles foram e-xe-cu-ta-dos. Reparem que os atingidos nem carregavam fuzis. Poderiam nem ser “bandidos”, mas moradores tomados de pânico, diante da invasão dos caveiras.

O coro reagiu: ah, Bruno, nem vem, todo mundo sabe que eram da facção ou pelo menos estão envolvidos de alguma forma.

Ora, poderiam não ser bandidos, não poderiam? Em tese, poderiam não ser. E isso basta, a dúvida. Um inocente executado ali não vale a prisão de todos os culpados. Aliás, e se fossem “bandidos”? Tem bandido e bandido. Tem o chefão mandante de 50 homicídios e tem o aviãozinho de 14 anos que entrega a trouxinha. E, ainda que, hipoteticamente, sejam todos eles sem exceção assassinos sanguinários zé-pequenos que-nem-no-Tropa-de-Elite? (O que é bem diferente do que estar somente “envolvido de alguma forma”.) Mesmo assim, não há pena de morte no Brasil. E, mesmo que houvesse, não seria permitida a execução sumária — sem acusação, defesa, julgamento e apelação.

Pergunto: até onde isso não é praxe em operações assim? Invade a favela, mata-se, e depois sai na imprensa que “morreram X moradores da favela supostamente envolvidos com o tráfico”. E ponto final. A única legitimidade do estado para invadir, prender e punir reside em sua invocada superioridade moral, em relação aos criminosos. Por isso, se agentes do estado abusam, sem respeitar garantias básicas, sem seguir o devido processo legal, qualquer que seja o pretexto, deslegitimam-se. Imediatamente. Sem ponderação.

E então ouvi o inevitável: que discursinho, Bruno, mas contra o crime organizado não pode ter moleza, aquela galera ali é parte desse jogo.

Discordo. Pra mim, “crime organizado” se constitui de sofisticados grupos multinacionais, com altíssimos lucros, abundantes em conchavos e conexões com os poderosos: na política, na polícia, no sistema financeiro (para lavar o dinheiro). A molecada que toca o varejo é bucha. Mesmo os “chefões” que ocasionalmente vão presos, são só um pouquinho menos bucha. Ninguém está falando que são pobrezinhos coitados, nem que sejam forçados pelas circunstâncias a aderir às facções, por descaminho. Não são. Apesar disso, é preciso admitir que tais adolescentes e jovens são totalmente acessórios e descartáveis, e não são eles que sustentam a economia das drogas ilícitas. Na realidade, essa gente é interceptada pela cadeia produtiva, administrada e comandada pelo verdadeiro “crime organizado”. Fossem eles organizados de verdade, não estariam sendo progressivamente dizimados pelas milícias, que tendem a monopolizar o mercado.

Pronto, a essa altura, o estabelecimento inteiro me considera um sem-noção irremediável. Mas alguém tenta esclarecer este louco da verdade: veja bem, agora é guerra, a bandidagem começou, pediu e recebeu, está queimando carros, metralhando postos de polícia, com tudo isso é natural que a sociedade queira uma resposta imediata e os próprios moradores das favelas apóiam as operações.

Primeiro, é tremenda ilusão acreditar em “respostas imediatas” para problemas complexos e profundos. Desconheço questão mais espinhosa, mais pontuada de armadilhas, do que a segurança pública no Rio de Janeiro. No fundo, essas “respostas imediatas” camuflam outra coisa, bem mais preocupante: estado de exceção. Isto significa: a desativação de garantias e direitos, a tolerância de excessos e abusos, de maneira que os atos ilegais do estado não sejam considerados delituosos, que cada agente se sinta livre para aplicar todos os meios disponíveis. É um cheque em branco às operações: fazer o que for preciso pra restabelecer a ordem.

Segundo, não tem guerra coisa alguma. A rigor, guerra implica declaração formal do Presidente da República e autorização do Congresso Nacional, e pressupõe dois lados perfeitamente delineados, com uniformes, bandeiras e tutti quanti. O que se tem hoje no Rio não é sequer “guerra civil”. Não existe exército separatista, nenhuma sedição nas forças armadas, nenhum grupo querendo depor os governantes e instalar um novo regime. A menos que se aceitem vagas classificações: “guerra contra o terror”, “guerra contra as drogas”, “guerra contra o crime” etc. Porém, tudo isso não é propriamente guerra; aliás, é qualquer coisa…

Terceiro, não faço apologia aos grupos de varejo de drogas, e muito menos coloco as minhas fichas “esquerdistas” nos traficantes, como se fossem uma forma de resistência, uma forma democrática ou progressista. Não e não. As facções ocupam territórios como se fossem feudos, subjugam os moradores, impõem a lei do medo, não vão além de um governo despótico bastante precário e descontrolado.

Meu ponto é que estão fazendo as perguntas errradas. Toda a questão está mal-colocada por causa do imediatismo, do preconceito, do maniqueísmo e da pulsão da morte que a grande imprensa promove — a televisão em especial. Essa percepção oblíqua é uma das principais causas da manutenção do estado das coisas.

Nesse momento, já sem qualquer chance de travar diálogo, sabendo que falaria doravante para as paredes, fui pra casa e passei a matutar sobre a questão das questões: então, o que fazer?

Primeiro, achar uma pergunta melhor. A pergunta melhor, acho eu, morador do Rio, deve orientar-se pelas causas materiais dessa mixórdia, em que poder do crime e crime do poder (a expressão é do sociólogo Giuseppe Cocco) estão do mesmo lado da equação e se somam, tendo como resultado o massacre sistemático — e amiúde anônimo — de jovens negros em comunidades pobres, nos morros e na periferia. Pode não haver o xis da questão, a resposta definitiva, mas alguns fatores merecem atenção.

É preciso analisar a economia por trás das ilegalidades. Como o dinheiro e o poder circulam ao redor do comércio de drogas ilícitas. Quem ganha? Quem é beneficiado politicamente? Quem trafica influência? Quem define o que é tolerado e o que não é?

Existe uma gestão do ilegal que produz lucro e sustenta campanhas eleitorais e confere respaldo político a pessoas no poder, no estado, na mídia. Legalizar, pra essa turma, significaria o fim de um banquete: fim do monopólio comercial, fim do controle sobre a cadeia produtiva, bem como maior fiscalização — logo, menos dinheiro e poder. Para o esquemão, é fundamental que as drogas ilícitas mantenham-se um caso de polícia, e de polícia com toda a sua carga de abuso e corrupção. Jamais de saúde pública.

Como efeito colateral, a “guerra ao tráfico” fragmenta ainda mais a cidade. Na cidade sitiada, multiplicam-se muros, grades, portões, câmeras, alarmes. As pessoas se retraem: vão de casa para o trabalho e deste para casa — quando muito freqüentam o shopping, a academia, o clube e outras ilhas de segurança e assepsia. O cidadão é vencido pelo indivíduo. Desmobiliza-se a metrópole como organismo vivo da democracia, nos seus fluxos horizontais de práticas e discursos, no seu amor comum.

Além disso, é preciso compreender a milícia não como alternativa menos imoral e menos bárbara do que as facções tradicionais. Com efeito, a milícia é uma evolução política e econômica, uma forma mais eficiente de gestão das ilegalidades, signo do limiar cada vez mais indistingüível entre estado e crime. A milícia está vencendo porque é uma aplicação eficiente do poder: mais rendimento, menos barulho. Como escreveu Luiz Eduardo Soares: “o modelo do tráfico armado, sustentado em domínio territorial, é atrasado, pesado, anti-econômico.” A carteira de negócios da milícia não se restringe ao comércio de drogas ilegais. Abrange toda a atividade econômica no seu território: o transporte coletivo, a TV a cabo, a venda de “proteção”, as “taxas” de construção, a renda dos camelôs etc. Menos que salvação da lavoura, como raciocina parte da imprensa, trata-se de um refinamento e aprofundamento do poder do crime (e do crime do poder), em cima da mesma economia de ilegalidades.

Por isso tudo, não existe solução técnica. Não basta pôr tantos policiais na rua, ocupar tantos morros, aplicar maciçamente as forças armadas, tudo isso para prender X jovens-negros-pobres e executar Y jovens-negros-pobres. E não adianta devassar as instituições pra “arrumar a casa”. Como se pudesse desatar o nó górdio eliminando policiais “sujos” e políticos corruptos. Ora, não é funcionando de modo mais “limpo” ou eficiente que o sistema penal passará a defender a sociedade. No Brasil, não há carência, mas exagero de punição. O sistema é assim mesmo. Trata-se das raízes da história brasileira: o poder se constituiu assim, para funcionar desse jeito. A invocação de superioridade moral participa da farsa e serve para legitimar o crime do poder.

Mas, caramba, o que é o tal sistema, cara-pálida?

Nesta questão particular, é um tripé: 1) a base histórica de desigualdade e racismo que atravessa a sociedade toda, 2) o funcionamento desigual do sistema punitivo (polícia, justiça, prisão), como fiador dessa base, e 3) a criminalização de determinadas substâncias, como motor da economia de ilegalidades, e sua produção de discurso, poder e lucro.

Em resumo: o problema é falta de democracia. Daí a solução passar, necessariamente, por mais democracia. E isso se realiza com políticas concretas, a incidir sobre causas materiais, com dignóstico da situação real, evitando cair nos vários ardis acima expostos: o espetáculo da mídia, a análise maniqueísta, o discurso do medo e da exceção, a farsa do poder constituído.

Assim, à guisa de maior desenvolvimento, arrisco apresentar três caminhos para o debate e a formulação, que possam impactar, na sua estrutura mais íntima, os processos de violência urbana no Rio de Janeiro, quiçá nas metrópoles terceiromundistas em geral:

1) Políticas de desenvolvimento/urbanização de áreas pobres (ex.: PAC das comunidades), de geração e distribuição de renda e bens sociais (ex.: Bolsa Família, Projovem, Prouni), conjugadas intimamente com ações afirmativas substantivas (ex.: cotas raciais na educação, nos concursos públicos).

2) Democratização do sistema penal, nos seus três setores: quer a polícia (ex.: polícia comunitária, partindo do projeto das Unidades Policiais Pacificadoras – UPP, que pode e deve ser melhorado como instância articuladora e mediadora entre demandas da comunidade e poderes públicos), quer a justiça criminal (ex.: criminologia crítica, constitucionalização do direito penal, quadro de juízes e promotores mais social/racialmente plural, fortalecimento das defensorias públicas, acesso à justiça), quer o complexo prisional (ex.: despenalização de condutas não-violentas, penas alternativas, revolução das cadeias como espaços de ressocialização e não como “universidades do crime”).

3) Descriminalização de todas as drogas ilícitas, sem exceção, desvinculando o uso, o porte, a produção e a venda da atenção da polícia e da justiça criminal, convertendo em problema político de saúde pública, a ser estudado, controlado e gerido por órgãos especializados que já fiscalizam fármacos, com regulamentação lúcida e democraticamente debatida e aprovada.

26 de nov de 2010

Quem tem medo da blogosfera? - 2

Depois da entrevista de Lula dada aos blogueiros, antiontem (24/11) os jornalistas da velha mídia estão preocupando com a ascensão dos novos protagonistas da informação.

O artigo da colunista Dora Kramer sinaliza para essa "perda" de poder sobre a informação midiática. 

Seu artigo ignora por completo a questão da evolução da comunicação via internet.

Hoje, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, diz que é impossível não ter regulação no setor de mídia eletrônica, mas que não pode ter regulação no conteúdo.

Segundo ele, não pode ser enfiada "goela abaixo" pelo Congresso e pelo país essa proposta. 

Na avaliação de FHC, esse debate ainda vai demorar "muito tempo". Este blogueiro se pergunta qual seria o conceito de "muito tempo" para o sociólogo. 

De qualquer forma, não é fácil para leitores e telespectadores receberem "goela abaixo" a chuva de factóides criados todos os dias pela velha mídia.

A regulação do setor passa não só pela democratização do acesso aos meios de comunicação eletrônico, mas pela possibilidade desses colunistas e jornalistas fazerem jornalismo.

Artigo raro em seus artigos.

Eduardo Pessoa

Luiz Eduardo Soares: mudar o foco das perguntas

Publico texto de Luiz Eduardo Soares, ex-secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro, analisando o quadro de violência e a cobertura midiática sobre o caso.

Ele vai além e faz uma crítica - na opinião deste humilde blogueiro - com embasamento sobre a UPPs. E critica a repetição da fórmula atualmente vigente na cobertura jornalística.

Para Soares, mudar o enfoque da pergunta é mais do que obrigação; é necessidade.

"O foco capaz de ajudar a mudar a realidade é aquele apontado por outra pergunta: o que fazer para aperfeiçoar a segurança pública, no Rio e no Brasil, evitando a violência de todos os dias, assim como sua intensificação, expressa nas sucessivas crises?", se pergunta.

Vale a pena conferir. Uma aula de jornalismo, esquecida faz anos pela velha mídia, que prefere o espetáculo imagético.

O original foi retirado de seu blog e está linkado no nome dele.

Eduardo Pessoa

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A crise no Rio e o pastiche midiático

Sempre mantive com jornalistas uma relação de respeito e cooperação. Em alguns casos, o contato profissional evoluiu para amizade. Quando as divergências são muitas e profundas, procuro compreender e buscar bases de um consenso mínimo, para que o diálogo não se inviabilize. Faço-o por ética –supondo que ninguém seja dono da verdade, muito menos eu--, na esperança de que o mesmo procedimento seja adotado pelo interlocutor. Além disso, me esforço por atender aos que me procuram, porque sei que atuam sob pressão, exaustivamente, premidos pelo tempo e por pautas urgentes. A pressa se intensifica nas crises, por motivos óbvios. Costumo dizer que só nós, da segurança pública (em meu caso, quando ocupava posições na área da gestão pública da segurança), os médicos e o pessoal da Defesa Civil, trabalhamos tanto –ou sob tanta pressão-- quanto os jornalistas.

Digo isso para explicar por que, na crise atual, tenho recusado convites para falar e colaborar com a mídia:

(1) Recebi muitos telefonemas, recados e mensagens. As chamadas são contínuas, a tal ponto que não me restou alternativa a desligar o celular. Ao todo, nesses dias, foram mais de cem pedidos de entrevistas ou declarações. Nem que eu contasse com uma equipe de secretários, teria como responder a todos e muito menos como atendê-los. Por isso, aproveito a oportunidade para desculpar-me. Creiam, não se trata de descortesia ou desapreço pelos repórteres, produtores ou entrevistadores que me procuraram.

(2) Além disso, não tenho informações de bastidor que mereçam divulgação. Por outro lado, não faria sentido jogar pelo ralo a credibilidade que construí ao longo da vida. E isso poderia acontecer se eu aceitasse aparecer na TV, no rádio ou nos jornais, glosando os discursos oficiais que estão sendo difundidos, declamando platitudes, reproduzindo o senso comum pleno de preconceitos, ou divagando em torno de especulações. A situação é muito grave e não admite leviandades. Portanto, só faria sentido falar se fosse para contribuir de modo eficaz para o entendimento mais amplo e profundo da realidade que vivemos. Como fazê-lo em alguns parcos minutos, entrecortados por intervenções de locutores e debatedores? Como fazê-lo no contexto em que todo pensamento analítico é editado, truncado, espremido –em uma palavra, banido--, para que reinem, incontrastáveis, a exaltação passional das emergências, as imagens espetaculares, os dramas individuais e a retórica paradoxalmente triunfalista do discurso oficial?

(3) Por fim, não posso mais compactuar com o ciclo sempre repetido na mídia: atenção à segurança nas crises agudas e nenhum investimento reflexivo e informativo realmente denso e consistente, na entressafra, isto é, nos intervalos entre as crises. Na crise, as perguntas recorrentes são: (a) O que fazer, já, imediatamente, para sustar a explosão de violência? (b) O que a polícia deveria fazer para vencer, definitivamente, o tráfico de drogas? (c) Por que o governo não chama o Exército? (d) A imagem internacional do Rio foi maculada? (e) Conseguiremos realizar com êxito a Copa e as Olimpíadas?

Ao longo dos últimos 25 anos, pelo menos, me tornei “as aspas” que ajudaram a legitimar inúmeras reportagens. No tópico, “especialistas”, lá estava eu, tentando, com alguns colegas, furar o bloqueio à afirmação de uma perspectiva um pouquinho menos trivial e imediatista. Muitas dessas reportagens, por sua excelente qualidade, prescindiriam de minhas aspas –nesses casos, reduzi-me a recurso ocioso, mera formalidade das regras jornalísticas. Outras, nem com todas as aspas do mundo se sustentariam. Pois bem, acho que já fui ou proporcionei aspas o suficiente. Esse código jornalístico, com as exceções de praxe, não funciona, quando o tema tratado é complexo, pouco conhecido e, por sua natureza, rebelde ao modelo de explicação corrente. Modelo que não nasceu na mídia, mas que orienta as visões aí predominantes. Particularmente, não gostaria de continuar a ser cúmplice involuntário de sua contínua reprodução.

Eis por que as perguntas mencionadas são expressivas do pobre modelo explicativo corrente e por que devem ser consideradas obstáculos ao conhecimento e réplicas de hábitos mentais refratários às mudanças inadiáveis. Respondo sem a elegância que a presença de um entrevistador exigiria. Serei, por assim dizer, curto e grosso, aproveitando-me do expediente discursivo aqui adotado, em que sou eu mesmo o formulador das questões a desconstruir. Eis as respostas, na sequência das perguntas, que repito para facilitar a leitura:

(a) O que fazer, já, imediatamente, para sustar a violência e resolver o desafio da insegurança?

Nada que se possa fazer já, imediatamente, resolverá a insegurança. Quando se está na crise, usam-se os instrumentos disponíveis e os procedimentos conhecidos para conter os sintomas e salvar o paciente. Se desejamos, de fato, resolver algum problema grave, não é possível continuar a tratar o paciente apenas quando ele já está na UTI, tomado por uma enfermidade letal, apresentando um quadro agudo. Nessa hora, parte-se para medidas extremas, de desespero, mobilizando-se o canivete e o açougueiro, sem anestesia e assepsia. Nessa hora, o cardiologista abre o tórax do moribundo na maca, no corredor. Não há como construir um novo hospital, decente, eficiente, nem para formar especialistas, nem para prevenir epidemias, nem para adotar procedimentos que evitem o agravamento da patologia. Por isso, o primeiro passo para evitar que a situação se repita é trocar a pergunta. O foco capaz de ajudar a mudar a realidade é aquele apontado por outra pergunta: o que fazer para aperfeiçoar a segurança pública, no Rio e no Brasil, evitando a violência de todos os dias, assim como sua intensificação, expressa nas sucessivas crises?

Se o entrevistador imaginário interpelar o respondente, afirmando que a sociedade exige uma resposta imediata, precisa de uma ação emergencial e não aceita nenhuma abordagem que não produza efeitos práticos imediatos, a melhor resposta seria: caro amigo, sua atitude representa, exatamente, a postura que tem impedido avanços consistentes na segurança pública. Se a sociedade, a mídia e os governos continuarem se recusando a pensar e abordar o problema em profundidade e extensão, como um fenômeno multidimensional a requerer enfrentamento sistêmico, ou seja, se prosseguirmos nos recusando, enquanto Nação, a tratar do problema na perspectiva do médio e do longo prazos, nos condenaremos às crises, cada vez mais dramáticas, para as quais não há soluções mágicas.

A melhor resposta à emergência é começar a se movimentar na direção da reconstrução das condições geradoras da situação emergencial. Quanto ao imediato, não há espaço para nada senão o disponível, acessível, conhecido, que se aplica com maior ou menor destreza, reduzindo-se danos e prolongando-se a vida em risco.

A pergunta é obtusa e obscurantista, cúmplice da ignorância e da apatia.

(b) O que as polícias fluminenses deveriam fazer para vencer, definitivamente, o tráfico de drogas?

Em primeiro lugar, deveriam parar de traficar e de associar-se aos traficantes, nos “arregos” celebrados por suas bandas podres, à luz do dia, diante de todos. Deveriam parar de negociar armas com traficantes, o que as bandas podres fazem, sistematicamente. Deveriam também parar de reproduzir o pior do tráfico, dominando, sob a forma de máfias ou milícias, territórios e populações pela força das armas, visando rendimentos criminosos obtidos por meios cruéis.

Ou seja, a polaridade referida na pergunta (polícias versus tráfico) esconde o verdadeiro problema: não existe a polaridade. Construí-la –isto é, separar bandido e polícia; distinguir crime e polícia-- teria de ser a meta mais importante e urgente de qualquer política de segurança digna desse nome. Não há nenhuma modalidade importante de ação criminal no Rio de que segmentos policiais corruptos estejam ausentes. E só por isso que ainda existe tráfico armado, assim como as milícias.

Não digo isso para ofender os policiais ou as instituições. Não generalizo. Pelo contrário, sei que há dezenas de milhares de policiais honrados e honestos, que arriscam, estóica e heroicamente, suas vidas por salários indignos. Considero-os as primeiras vítimas da degradação institucional em curso, porque os envergonha, os humilha, os ameaça e acua o convívio inevitável com milhares de colegas corrompidos, envolvidos na criminalidade, sócios ou mesmo empreendedores do crime.

Não nos iludamos: o tráfico, no modelo que se firmou no Rio, é uma realidade em franco declínio e tende a se eclipsar, derrotado por sua irracionalidade econômica e sua incompatibilidade com as dinâmicas políticas e sociais predominantes, em nosso horizonte histórico. Incapaz, inclusive, de competir com as milícias, cuja competência está na disposição de não se prender, exclusivamente, a um único nicho de mercado, comercializando apenas drogas –mas as incluindo em sua carteira de negócios, quando conveniente. O modelo do tráfico armado, sustentado em domínio territorial, é atrasado, pesado, anti-econômico: custa muito caro manter um exército, recrutar neófitos, armá-los (nada disso é necessário às milícias, posto que seus membros são policiais), mantê-los unidos e disciplinados, enfrentando revezes de todo tipo e ataques por todos os lados, vendo-se forçados a dividir ganhos com a banda podre da polícia (que atua nas milícias) e, eventualmente, com os líderes e aliados da facção. É excessivamente custoso impor-se sobre um território e uma população, sobretudo na medida que os jovens mais vulneráveis ao recrutamento comecem a vislumbrar e encontrar alternativas. Não só o velho modelo é caro, como pode ser substituído com vantagens por outro muito mais rentável e menos arriscado, adotado nos países democráticos mais avançados: a venda por delivery ou em dinâmica varejista nômade, clandestina, discreta, desarmada e pacífica. Em outras palavras, é melhor, mais fácil e lucrativo praticar o negócio das drogas ilícitas como se fosse contrabando ou pirataria do que fazer a guerra. Convenhamos, também é muito menos danoso para a sociedade, por óbvio.

(c) O Exército deveria participar?

Fazendo o trabalho policial, não, pois não existe para isso, não é treinado para isso, nem está equipado para isso. Mas deve, sim, participar. A começar cumprindo sua função de controlar os fluxos das armas no país. Isso resolveria o maior dos problemas: as armas ilegais passando, tranquilamente, de mão em mão, com as benções, a mediação e o estímulo da banda podre das polícias.

E não só o Exército. Também a Marinha, formando uma Guarda Costeira com foco no controle de armas transportadas como cargas clandestinas ou despejadas na baía e nos portos. Assim como a Aeronáutica, identificando e destruindo pistas de pouso clandestinas, controlando o espaço aéreo e apoiando a PF na fiscalização das cargas nos aeroportos.

(d) A imagem internacional do Rio foi maculada?

Claro. Mais uma vez.

(e) Conseguiremos realizar com êxito a Copa e as Olimpíadas?

Sem dúvida. Somos ótimos em eventos. Nesses momentos, aparece dinheiro, surge o “espírito cooperativo”, ações racionais e planejadas impõem-se. Nosso calcanhar de Aquiles é a rotina. Copa e Olimpíadas serão um sucesso. O problema é o dia a dia.

Palavras Finais

Traficantes se rebelam e a cidade vai à lona. Encena-se um drama sangrento, mas ultrapassado. O canto de cisne do tráfico era esperado. Haverá outros momentos análogos, no futuro, mas a tendência declinante é inarredável. E não porque existem as UPPs, mas porque correspondem a um modelo insustentável, economicamente, assim como social e politicamente. As UPPs, vale dizer mais uma vez, são um ótimo programa, que reedita com mais apoio político e fôlego administrativo o programa “Mutirões pela Paz”, que implantei com uma equipe em 1999, e que acabou soterrado pela política com “p” minúsculo, quando fui exonerado, em 2000, ainda que tenha sido ressuscitado, graças à liderança e à competência raras do ten.cel. Carballo Blanco, com o título GPAE, como reação à derrocada que se seguiu à minha saída do governo. A despeito de suas virtudes, valorizadas pela presença de Ricardo Henriques na secretaria estadual de assistência social --um dos melhores gestores do país--, elas não terão futuro se as polícias não forem profundamente transformadas. Afinal, para tornarem-se política pública terão de incluir duas qualidades indispensáveis: escala e sustentatibilidade, ou seja, terão de ser assumidas, na esfera da segurança, pela PM. Contudo, entregar as UPPs à condução da PM seria condená-las à liquidação, dada a degradação institucional já referida.

O tráfico que ora perde poder e capacidade de reprodução só se impôs, no Rio, no modelo territorializado e sedentário em que se estabeleceu, porque sempre contou com a sociedade da polícia, vale reiterar. Quando o tráfico de drogas no modelo territorializado atinge seu ponto histórico de inflexão e começa, gradualmente, a bater em retirada, seus sócios –as bandas podres das polícias-- prosseguem fortes, firmes, empreendedores, politicamente ambiciosos, economicamente vorazes, prontos a fixar as bandeiras milicianas de sua hegemonia.

Discutindo a crise, a mídia reproduz o mito da polaridade polícia versus tráfico, perdendo o foco, ignorando o decisivo: como, quem, em que termos e por que meios se fará a reforma radical das polícias, no Rio, para que estas deixem de ser incubadoras de milícias, máfias, tráfico de armas e drogas, crime violento, brutalidade, corrupção? Como se refundarão as instituições policiais para que os bons profissionais sejam, afinal, valorizados e qualificados? Como serão transformadas as polícias, para que deixem de ser reativas, ingovernáveis, ineficientes na prevenção e na investigação?

As polícias são instituições absolutamente fundamentais para o Estado democrático de direito. Cumpre-lhes garantir, na prática, os direitos e as liberdades estipulados na Constituição. Sobretudo, cumpre-lhes proteger a vida e a estabilidade das expectativas positivas relativamente à sociabilidade cooperativa e à vigência da legalidade e da justiça. A despeito de sua importância, essas instituições não foram alcançadas em profundidade pelo processo de transição democrática, nem se modernizaram, adaptando-se às exigências da complexa sociedade brasileira contemporânea. O modelo policial foi herdado da ditadura. Ele servia à defesa do Estado autoritário e era funcional ao contexto marcado pelo arbítrio. Não serve à defesa da cidadania. A estrutura organizacional de ambas as polícias impede a gestão racional e a integração, tornando o controle impraticável e a avaliação, seguida por um monitoramento corretivo, inviável. Ineptas para identificar erros, as polícias condenam-se a repeti-los. Elas são rígidas onde teriam de ser plásticas, flexíveis e descentralizadas; e são frouxas e anárquicas, onde deveriam ser rigorosas. Cada uma delas, a PM e a Polícia Civil, são duas instituições: oficiais e não-oficiais; delegados e não-delegados.

E nesse quadro, a PEC-300 é varrida do mapa no Congresso pelos governadores, que pagam aos policiais salários insuficientes, empurrando-os ao segundo emprego na segurança privada informal e ilegal.

Uma das fontes da degradação institucional das polícias é o que denomino "gato orçamentário", esse casamento perverso entre o Estado e a ilegalidade: para evitar o colapso do orçamento público na área de segurança, as autoridades toleram o bico dos policiais em segurança privada. Ao fazê-lo, deixam de fiscalizar dinâmicas benignas (em termos, pois sempre há graves problemas daí decorrentes), nas quais policiais honestos apenas buscam sobreviver dignamente, apesar da ilegalidade de seu segundo emprego, mas também dinâmicas malignas: aquelas em que policiais corruptos provocam a insegurança para vender segurança; unem-se como pistoleiros a soldo em grupos de extermínio; e, no limite, organizam-se como máfias ou milícias, dominando pelo terror populações e territórios. Ou se resolve esse gargalo (pagando o suficiente e fiscalizando a segurança privada /banindo a informal e ilegal; ou legalizando e disciplinando, e fiscalizando o bico), ou não faz sentido buscar aprimorar as polícias.

O Jornal Nacional, nesta quinta, 25 de novembro, definiu o caos no Rio de Janeiro, salpicado de cenas de guerra e morte, pânico e desespero, como um dia histórico de vitória: o dia em que as polícias ocuparam a Vila Cruzeiro. Ou eu sofri um súbito apagão mental e me tornei um idiota contumaz e incorrigível ou os editores do JN sentiram-se autorizados a tratar milhões de telespectadores como contumazes e incorrigíveis idiotas.

Ou se começa a falar sério e levar a sério a tragédia da insegurança pública no Brasil, ou será pelo menos mais digno furtar-se a fazer coro à farsa.

Itália e Rio: semelhanças no combate a máfia

Na idade média, a Itália é uma região dividida. Conquista a independência institucional e a união nacional somente em 1870.

Na idade média, a Itália é dividida por Ducados e Repúblicas (Ducado de Milão, de Elba, Florença, etc.) e o Vaticano controla boa parte da região central (vide mapa abaixo, do século XV).

Mapa da Itália no século XV
Com a união alcançada no século XIX, o estado deixa regiões do país "descobertas". A região sul da Itália (onde fica Nápoles) é uma delas.

Ainda sobrevivem os suseranos e vassalos. Muitos dos suseranos, proprietários de terras no sul da Itália são os "fundadores" da máfia, nos termos atuais.

O desejo de vender as terras colide com o poder do suserano, geralmente o rei ou outra figura nobiliárquica. O poder dos nobres está em franco declínio e o Vaticano atinge as dimensões que tem atualmente.

O Vaticano atualmente é uma cidade-estado, que funciona dentro da capital italiana, Roma
Assim, os primeiros grupos de proteção forçada depredam a plantação e o gado, extorquindo aqueles que eventualmente querem proteção. [Lembra ou não a forma de atuação das milícias no Rio de Janeiro?]

Em linhas gerais, a máfia existe na Itália desde o século XIX, embora alguns estudiosos apontem para o surgimento do clã Cosa Nostra desde o século XVI.

A máfia engrandece

Na primeira guerra mundial (1914-1918) a Itália vive uma situação considerada de pobreza e de tensão entre norte e sul. [Lembra ou não lembra a divisão entre Nordeste e Sudeste no Brasil?]

No norte, os trabalhadores entram em greve por melhores condições de trabalho; no sul, os jovens egressos da guerra não encontram trabalho no campo, promessa do governo na época.

O clima de tensão vivido pelo país provoca o surgimento do regime Fascista, comandado por Benito Mussolini e o fortalecimento da máfia.

Parte dos soldados ingressam no Partido Nacional Fascista (PNF), penetram em associações de viés socialista ou fortalecem os clãs mafiosos.

No começo do século XX é comum na Itália, em especial na Sicilia, o roubo de gado. Os pequenos e médios produtores agrícolas, insatisfeitos com a inércia e a indiferença dos agentes estatais, buscam proteção e apoio nos grupos mafiosos.

Nesse período, o clã mafioso Cosa Nostra se destaca por sua atuação nesse tipo de tarefa.

Os mafiosos então fazem a intermediação entre as vítimas (pequenos produtores) e os delinquentes. Nessa intermediação, a máfia cobra dos produtores a "parcela" referente a atuação e recuperação do gado. [Mais uma vez: lembra ou não lembra a atuação das milícias?]

Cesare Mori e o enfraquecimento da máfia

Com o fascismo já instalado na Itália, Mussolini visita a ilha da Sicília em 1929, onde verifica que a máfia goza de prestígio e exerce grande influência sobre os pequenos produtores rurais.

Em junho de 29, Mussolini nomeia Cesare Mori para prefeito da cidade de Trapani e depois para prefeito de Palermo, em outubro do mesmo ano.

Chamado de "prefeito de ferro", Mori tem por missão "acabar com a máfia utilizando qualquer meio necessário". Assim, Mori inicia uma caça implacável aos clãs mafiosos, onde prende uma centena de mafiosos, entre boss (chefes do clã mafioso) e sentinelas.

Ele vai além e descobre ligação entre membros de Cosa Nostra e o PNF - Partido Nacional Fascista. Alfredo Cucco é um desses membros com braço no fascismo. Outros membros como o barão Vincenzo Ferrara, o príncipe Lanza di Scalea e Li Destri são protegidos do regime, com anuência de Mussolini. [Clique aqui para ver que qualquer semelhança com Tropa de Elite 2 não é mera coincidência]

Embora a população local desaprove a forma violenta de repressão da polícia, a máfia sobre um duro golpe por parte do Estado. Mori é o primeiro homem público a demonstrar que a máfia pode ser derrotada. Enfraquecida a máfia, alguns membros se refugiam no interior da ilha e outros fogem para os Estados Unidos.

Reorganizando a máfia

No texto publicado ontem (clique aqui para ler), o jurista Walter Maierovitch mostra que as organizações mafiosas e pré-mafiosas submergem, ou seja, se fingem de vencidas, mas voltam após o Estado controlar a situação.

A máfia, após o enfraquecimento promovido por Mori, volta com mais força. Durante a segunda guerra mundial, o eixo dos aliados (Estados Unidos, França e Inglaterra) se une contra o chamado "eixo do mal", composto por Itália, Alemanha e Japão.

Os boss da máfia refugiados nos Estados Unidos são convocados pelo Office of Strategic Service (OSS) - precursor da CIA - para formar uma coalizão, capaz de fornecer informações preciosas para tirar o fascismo do domínio territorial italiano.

Em troca, eles são levados novamente para a Itália, dando continuidade aos negócios mafiosos. A OSS também convoca líderes mafiosos remanescentes na Itália, como Giuseppe Russo e Vincenzo Di Carlo.

O contato com os clãs era de facilitar o acesso dos soldados ao sul da Itália (entram pela Sicília) para que os aliados controlem o território italiano, transferindo gradativamente o poder para o "povo italiano".

De forma indireta (ou não) os EUA acabam dando poderes para os remanescentes da máfia na Itália (re)assumirem o controle do território siciliano e conter o movimento "comunista" sobretudo com a ascensão da União Soviética, que ocupa a parte leste da Europa (Hungria, Polônia, República Tcheco-Eslováquia, Bulgária), chegando até Berlim.

Nova Itália e máfia poderosa

Terminada a segunda guerra mundial, a Itália e os demais países da Europa Ocidental (França, Reino Unido, Alemanha) recebem ajuda financeira dos Estados Unidos, através do Plano Marshall. Os Estados Unidos destinam cerca de US$ 13 bilhões para reconstrução desses países. Ajustado a inflação, em 2006 a ajuda correspondia a US$ 130 bilhões. [O PIB brasileiro está em mais de R$ 800 bilhões]

Com isso, a Itália diversifica seu sistema agrícola, recupera a indústria e desenvolve o setor terciário (comércio e serviços). Os clãs mafiosos, em linhas gerais, conseguem se adaptar a essa nova realidade econômica italiana.

Para tanto, a Cosa Nostra muda o enfoque de seus "negócios": estreita o relacionamento com o Estado e políticos, em especial aqueles ligados ao Partido Democrata Cristão, com grande influência na Sicília e na Itália.

Com essa aliança, a máfia consegue facilidades em licitações, construindo novos bairros e edifícios, facilidades de financiamento bancário e imunidade junto ao poder Judiciário. [O processo de Bari foi arquivado, em 1969, por insuficiência de provas, depois do juíz ter sido fortemente ameaçado pela máfia]

O Partido Democrata Cristão, por sua vez, consegue angariar um grande número de votos nos bairros dominados pela máfia e seus políticos arrecadam grandes quantias em dinheiro. [Clique aqui para ver que, novamente, não é coincidência o que é mostrado em Tropa de Elite 2]

O Governador da Sicília, Salvo Lima e seu assessor de assuntos públicos (equivalente a um Secretário de Obras), Vito Ciancimino, concedem 3011 das 4205 licitações expedidas naquele período para cinco pessoas, ligadas a clãs mafiosos.

Ou seja, naquele ano, as licitações são ganhas pelas mesmas cinco pessoas, que aboncanham 3011 permissões para construir, reformar e mudar bairros inteiros em Palermo.

A resposta do Estado italiano
O magistrado Giovanni Falcone.

Em um ambiente cuja máfia e governo andam lado a lado, os episódios de corrupção e violência são frequentes. A luta entre os clãs mafioso pelo controle do tráfico de drogas fica mais acirrado.
 
Em uma dessas disputas, uma bomba, aparentemente armada para pegar um membro de um clã rival, explode, matando dois policiais e três homens do exército italiano, responsáveis pelo seu desarmamento.

A situação se torna ainda mais grave quando os mafiosos encomendam a morte do prefeito siciliano Carlo Alberto Dalla Chiesa, sua esposa Emanuela Setti Carraro e do agente de polícia Domenico Russo.

Diante do quadro de crescente violência e indignação popular, o Estado italiano tomou medidas para enfraquecer a máfia.

A primeira medida foi reformular as leis do país, para que os magistrados e a polícia financeira tivessem acesso às contas bancárias dos clãs mafiosos. Com o endurecimento das leis, alguns mafiosos resolvem "colaborar" com a justiça.

Tommaso Buscetta se encontra com o magistrado Giovanni Falcone conta os pormenores das atividades mafiosas na Sicília. Com base nessas informações, Falcone - em parceria com Paolo Borsellino - inicia a abertura de inquerito em 1986 e só termina em 1987. 

A ação do magistrado resulta em 342 condenações, 2446 anos de prisão 19 prisões perpétuas.

Outra medida adotada pelo Estado italiano foi a recomposição do seu quadro de agentes públicos e políticos, com perfil mais técnico, sem vinculação com a máfia.

Além disso, a presença do exército na ilha [exatamente como fazem as UPPs nas favelas do Rio] foi importante para diminuir a criminalidade e pernder alguns chefes mafiosos.

Obviamente, a máfia não "deixa barato": em 1992, Falcone e Borsellino são mortos em atentado a bomba.

A lição para o Rio de Janeiro

A morte dos dois magistrados não impede o enfraqucimento da máfia, já graças  interceptação do dinheiro arrecadado do tráfico de drogas.

Embora ainda existam clãs mafiosos na Itália, seu poder se encontra limitado e em linhas gerais, as instituições republicanas recuperam sua confiança diante da população.

A síntese da história da máfia italiana e de seu combate mostra semelhanças com a violência no Rio de Janeiro. As Unidades de Polícia Pacificadora (UPP) implementadas no governo Sérgio Cabral, tem a missão de penetrar nas favelas e estabelecer um vínculo com a comunidade.

Esse vínculo enfraquece o poder de atuação dos traficantes, que se deslocam para outros bairros da cidade. Os ataques e ações em vários pontos da cidade mostram a indignação dos traficantes com a política bem-sucedida - apesar das falhas - das UPPs.

O governo do Rio de Janeiro pode ter maior êxito no combate ao tráfico, acelerando a implementação das UPPs em outros bairros e o apoio-monitoramento do governo federal nas ações da Polícia Federal e das Forças Armadas.

Além disso, a elaboração de novas leis mais eficazes e duras e revisão das atualmente existentes podem ser úteis para não só combater o tráfico, mas desmantelar as milícias e a estrutura que ainda o mantém de pé. Essa estrutura tem participação de empresários e políticos coniventes com a violência na cidade. A CPI das Milícias, elaborada pelo deputado estadual Marcelo Freixo é um bom início.

O combate à violência no Rio de Janeiro está tendo eficácia. Cabe agora avançar para renovar a cidade como um todo.

Eduardo Pessoa

Governo: Dilma 2 x 0 PIG

Saiu na Teletime:

Paulo Bernardo, atual ministro do Planejamento, deve ser o novo ministro das Comunicações do governo da presidente Dilma Rousseff. Segundo apurou este noticiário, Bernardo já trabalha para se inteirar dos temas da pasta e teria aceito o cargo dentro da perspectiva de que o Minicom será, no próximo governo, um ministério importante, responsável pelo Plano Nacional de Banda Larga, pela recuperação dos Correios (que voltarão a ter gestão técnica e não devem mais ser objeto de negociação política com a base do governo), Telebrás recuperada e operante, por fim, responsável pelas (complicadas) negociações para a Lei de Comunicação Eletrônica. Vale lembrar que Paulo Bernardo esteve à frente da intervenção nos Correios realizadas depois da saída da ex-ministra Erenice Guerra.

Segundo fontes de alto escalão do governo, Paulo Bernardo só não ficará com as Comunicações se tiver que ser escalado para uma função mais importante. Nesse caso, a Casa Civil, que estaria definida em favor de Antônio Palocci. Esta semana, Paulo Bernardo foi formalmente confirmado para compor o ministério de Dilma, mas não se informou qual seria a pasta. Casa Civil, Comunicações e Cidades estavam entre as possibilidades.

O Ministério das Comunicações deve ter seu papel de formulador de políticas na área de telecomunicações e radiodifusão recuperado, com secretarias fortes e atuantes em todos os setores. Deve ser criada, inclusive, uma secretaria de inclusão digital.

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Bernardo: baixa a bola, PIG!


Discreto, idôneo e competente: atributos mais que suficientes para Paulo Bernardo. Ministro do Planejamento no governo Lula, tem tudo para ser um bom ministro no governo Dilma. 

(O Palocci já está praticamente confirmado para a Casa Civil)

A escolha mostra que o poder de influência da Rede Globo está diminuindo drasticamente. O medo de perder o poder é tanto, que hoje, o jornal O Globo estampou em sua página: "no reino da lulosfera".

Acusam o presidente e os blogueiros que participaram ontem da entrevista no Palácio do Planalto de chapa-branca. E mais: chamaram a entrevista, que ocorreu conforme mostrado ontem aqui no blog de "suposta".

Pela primeira vez, o Ministério das Comunicações pode desempenhar um papel importante de criador de políticas públicas para as comunicações no Brasil. O ministério será responsável pela reestruturação dos Correios e pelo Plano Nacional de Banda Larga

[Clique aqui para ler o alarde da mídia quando foi anunciado o PNBL]

O tempo que a Globo andava de mãos dadas com os militares, escolhia ministros, controlava o Senado e ditava os rumos da política brasileira podem ter os dias contados.

Falar em censura contra a imprensa a essa altura do campeonato soa como exagero. Nunca os veículos da velha mídia tiveram tanta liberdade para bater, agredir e difamar sem serem questionados. Acusações levianas e sem argumentos são a tônica da velha mídia.

O governo do Rio de Janeiro vem obtendo êxito com as Unidades de Polícia Pacificadora (UPP). As ondas de violência acontecem em consequência do enfraquecimento financeiro do tráfico.

[Clique aqui para ler a opinião de Rodrigo Pimentel, roteirista do Tropa de Elite, sobre as UPPs]

Pimentel achava desnecessária a operação do BOPE, onde atuou por mais de 20 anos. O BOPE invadia a favela e saía em seguida: não mudava nada.

Com as UPPs é diferente: elas entram na favela e lá ficam, levando conscientização e cidadania. Um modelo que apesar das falhas, está mostrando seus resultados. E incomodando os traficantes. 

Pelo jeito anda incomodando o PIG e toda a turma da "zona sul" do Rio de Janeiro, acostumado a ver a favela como "abrigo de vagabundo". 

[Clique aqui para ler como os ricos tratam a violência no Rio]

Quero ver quando incomodarem as milícias. Será que o Marcelo Itagiba, que chamou Paulo Henrique Amorim e foi citado na CPI das milícias, de autoria de Marcelo Freixo (PSOL-RJ) terá o mesmo fôlego para falar alto no plenário do Congresso?

Democratizar a mídia é sobretudo mostrar que atrás do pessimismo de alguns jornalistas, existem sim notícias boas que rendem manchetes. O Brasil merece mais do que nove famílias controlando a informação.

Eduardo Pessoa

25 de nov de 2010

Quem tem medo da blogosfera?

Publico texto do jornalista Rodrigo Vianna, o Escrevinhador. Vianna, um dos blogueiros presentes na entrevista com Lula ontem no Palácio do Planalto, sinaliza que algo está mudando nas comunicações.

Para ele, a primeira mudança partiu do jornal O Globo, das Organizações Globo. O jornal do Rio chamou a entrevista de "chapa branca".

Dá vontade de rir, não é mesmo?

Abaixo o artigo (o original está linkado no nome dele).

Eduardo Pessoa

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Dói o fígado de “O Globo”

O jornal da família Marinho publicou chamada na capa sobre a entrevista de Lula aos blogueiros. E, numa página interna, estampou matéria de alto de página sobre a coletiva no Palácio do Planalto. O objetivo, evidentemente, era esculhambar os blogueiros e o presidente da República.

Achei muito engraçado: a turma de Ali Kamel está perdida. Passar recibo dessa forma a meia dúzia de blogueiros? Isso mostra o que? Que eles temem a blogosfera. Já não falam sozinhas. O fígado dos que dirigem as “Organizações Globo” dói por dois motivos:

- já não formam opinião como antes, e não decidem eleição (por mais que eu seja o primeiro a reconhecer que a velha mídia segue a concentrar algum poder; erra quem menospreza esse poder hoje cadente);

- já não falam sozinhos no Brasil.

Alguns amigos escreveram pra perguntar se não seria necessária uma “resposta” a “O Globo”. Outro bom amigo, o Beto Pandini, ligou logo cedo pra avisar: “você não pode deixar de ler O Globo, a cobertura deles sobre a entrevista com Lula é de rolar de rir”.

Concordo com o Beto. É engraçado”O Globo” chamar os blogueiros de “chapa-branca”.

He, he.

As “Organizações Globo” cresceram sob a ditadura, de braços dados com os militares. Depois, nomearam ACM para Ministro das Comunicações de Sarney. Na sequência, elegeram Collor. E ajudaram o país a vender suas estatais na era FHC. Essa é a história da Globo e de “O Globo”. Conheço bem, até porque lá trabalhei por 12 anos.

A história é autoexplicativa.

Globo, Folha, Abril e outros estão esperneando contra os blogueiros. É o ódio de quem já não pode ditar os rumos do país, sentado na varanda da Casa-Grande – esse tempo se foi. Ódio a Lula, ódio à mudança. Sentem ódio do país que, pouco a pouco, se torna mais democrático.

Alguns dos que estávamos sentados na sala do Palácio, a entrevistar Lula, no passado éramos vistos apenas como possíveis “empregados” da velha mídia. Hoje, podemos também ser concorrentes. Ainda que de forma modesta. Isso, eles não perdoam!

De minha parte, digo sempre: tenho lado e me orgulho disso. Sou de esquerda, e defendo as ações do governo Lula que considero favorecer a justiça social e o avanço do Brasil. Resguardo, no entanto, o direito de criticar tudo aquilo que achar necessário. E procuro não brigar com os fatos. Mas tenho lado.

“O Globo” também tem lado. Finge que não tem. E assim se torna ainda mais ridículo.

O lado em que está “O Globo” vive hoje na defensiva. Maior sinal disso é que tenha passado esse recibo gigantesco: o velho jornal carioca gastou papel, manchetes e mentiras para atacar meia dúzia de blogueiros “sujos”.

He, he. Como diz o Beto, é até engraçado. E como eu disse ontem no primeiro texto sobre a entrevista com Lula: algo se moveu no mundo das comunicações do Brasil. E “O Globo” – sem querer – ajudou a deixar isso mais claro!

Maierovtich: submergir para surpreender

O professor e jurista Walter Fanganiello Maierovitch publica excelente artigo sobre os ataques recentes no Rio de Janeiro.

[Clique aqui para ler como os ricos tratam a violência no Rio]

Para Maierovitch, os ataques das organizações criminosas no Rio - chamadas por ele de organizações pré-mafiosas - são uma reação às Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), implantadas no governo Cabral, que se instalaram nas favelas.

[Clique aqui para ler o que o sociólogo Ignacio Cano acha da violência no Rio]

Segundo ele, a permanência das UPPs nas favelas está enfraquecendo financeiramente as organizações, obrigadas a se deslocarem para outros bairros da cidade.

Na luta com o Estado, o Estado dispõe de maiores recursos para combater os ataques. Com isso, eles tendem a "submergir", ou seja, fingirem de vencidos.

Mas, segundo Maierovitch, quando a situação estiver normalizada, eles voltam com novos ataques, para aterrorizar a população e permitir que essas políticas não sejam implementadas.

Confira o artigo completo, publicado no Terra Magazine, clicando aqui.

Em tempo:
Durante a campanha eleitoral deste ano, José Serra (PSDB) disse que "a droga que entra no Brasil vem da Bolívia", acusando o governo federal (lê-se: governo Lula) de negligenciar a questão das drogas e do tráfico.

Pois bem: no mesmo artigo, Maierovitch cita que após os ataques do Primeiro Comando da Capital (PCC) às delegacias e postos policiais de São Paulo em 2006, o governo paulista negociou o fim dos ataques com os traficantes. Ele chama de "acordo espúrio".

Em 2006, o PSDB estava a frente do governo de São Paulo.

O governador? Geraldo Alckmin.

Dúvidas? Clique aqui.



Eduardo Pessoa