1 de nov de 2010

Tropa de Elite 2 e a Segurança Pública

A violência na cidade do Rio de Janeiro é tão explorada pela mídia quanto a bolinha de papel que atingiu o candidato José Serra.

José Padilha, diretor do filme Tropa de Elite, explorou bem o triste retrato da violência diária e urbana da cidade. No primeiro filme, o impecável Wagner Moura, no papel do Capitão Nascimento, da BOPE, mostra o "front" da guerra que mata milhares de cariocas todos os anos.

Já no segundo filme, Tropa de Elite 2, o diretor foi além. Deixou de lado o fato de que os "playboys" financiam o crime comprando drogas e desfilam pelas ruas de Copacabana pedindo paz.

Na segunda trama, Padilha e seu personagem principal, Nascimento - agora Coronel e Secretário de Segurança Pública do Rio - mostram uma estrutura maior e mais complexa.

Dentro da SSP/RJ, Nascimento, que está 15 anos mais velho, constata que as milícias são mais lucrativas que os traficantes que ele trucidava no primeiro filme. Além de receberem mesada dos moradores em troca de uma aparente "segurança", a milícia tem mais conhecimento e expertise que os "falcões".

Em linhas gerais, as milícias são compostas por ex-militares - Bombeiros, Policiais - além de traficante de drogas. Similar às estruturas da máfia italiana, as milícias tem ramificações no Estado.

O Secretário Nascimento, responsável pela pasta, percebe que a coisa é bem maior do que ele imaginava quando estava em campo atuando com seus "caveiras". A relação promíscua entre políticos, a mídia e os milicianos garantem votos, dinheiro e mais poder, mantendo inalterada a engrenagem do sistema.

Governador, Deputados e milicianos festejam em uma favela da cidade as suas candidaturas ao Palácio da Guanabara e a Assembléia Legislativa - ALERJ.

Padilha, em todo o filme, não se vê incomodado em colocar o dedo na ferida com toda a força necessária. Quem assistiu o filme, percebeu que os personagens ficticícios - reforçados pela mensagem inicial de que pode haver possíveis coincidências com a realidade - tem similaridade com suas contra-partes na vida real.

- Seu Jorge interpreta o traficante Beira-Mar, que comandou em 11 de Setembro de 2002, a rebelião do Bangú I, retratada no filme - apesar de algumas diferenças.

- Diogo Fraga, deputado federal e ativista dos direitos humanos, é inspirado no deputado Marcelo Freixo (PSOL), que recebeu inclusive apoio do próprio Wagner Moura. Freixo foi um dos relatores da CPI das Milícias, na Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro.

- Fortunato, apresentador de televisão e deputado estadual que tem apoio dos milicianos encontra fortes referências em Wagner Montes, que foi eleito deputado estadual nas eleições de 2010. Vale lembrar que não tem nada provando que Montes tem apoio de milícias.

- Coronel Fábio Barbosa tem elementos que recordam Álvaro Lins, ex-chefe da Polícia Civil no governo de Garotinho e deputado estadual, cuja relação com milicianos levou a perder o mandato na ALERJ.

Os pontos altos do filme são a morte de André Matias pelos milicianos, Cel. Nascimento comandando uma blitze, agredindo o deputado estadual e seu depoimento a CPI das Milícias na ALERJ. Na vida real, o autor do processo foi o próprio Marcelo Freixo.

As imagens sobrevoando o Congresso Nacional dão uma pista de onde nasce todo o esquema de corrupção que alimenta a máquina de violência vigente no RJ e em outras grandes capitais brasileiras.

Na opinião deste blogueiro, Tropa de Elite 2 é um filme mais maduro e melhor construído sob todos os aspectos - técnicos e de construção dos personagens e da narrativa. Isso sem falar no tema que aborda, bastante espinhento.

Talvez isso seja um forte indício das tantas falhas relacionadas ao tema. Além de muita emoção e adrenalina, Padilha presenteia ao espectador a possibilidade de refletir sobre o porque que "o gatilho não atira sozinho".

Em tempo:
A reclamação de muitas pessoas, perguntando por qual motivo o filme não saiu antes do período eleitoral, se refere à própria legislação eleitoral. Ele poderia ser interpretado como propaganda eleitoral em favor de Freixo, que não pode fazer campanha política na Zona Oeste do RJ, por conta das milícias e dos 226 políticos presos, depois de sua CPI.

Em tempo 2:
Abaixo o mapa das milícias no Rio de Janeiro. Os pontos em azul são as áreas controladas pelos milicianos. São 92 das 500 favelas existentes na cidade, que estão nas mãos da milícia. Retirei do site Ambrosia:


Eduardo Pessoa

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