6 de set de 2010

Meu partido é um coração partido

Os partidos políticos são resultado da complexidade do mundo capitalista contemporâneo. Já existia, no século XIX, a idéia de partido como "parte" ou integração do indivíduo em uma "parte" socialmente difundida e aceita. Mas os partidos políticos possuem características e peculiaridades diferentes.

1) Os partidos políticos trabalham com a lógica do interesse, palavra de origem latina que significa "estar entre", "participar". Os partidos não acompanham os anseios da "massa" que dizem representar, por conta dos conflitos, internos e externos, que precisam resolver.

Os conflitos internos acontecem por grupos, dentro da organização partidária, que querem ascender dentro da estrutura, chegando ao grupo "majoritário", isto é, ao conjunto de burocratas que controlam o partido.

Outra forma de conflito interno é quando grupos dentro de um mesmo partido assumem posições diferente. Exemplo: partido dos ruralistas e dentro dele, um grupo a favor da reforma agrária (isso não existe, ok? apenas situação hipotética).

Os conflitos externos acontecem quando tem divergência entre a realidade social e a retórica do partido político junto ao seu "público-alvo".

2) Os partidos políticos trabalham com o conceito de "dissimulação-simulação", isto é, a criação de um discurso em que elementos de linguagem comum ao seu público-alvo são usados para mostrar ou esconder propostas de campanha. 

Em 2002, por exemplo, Lula chegou a Presidência da República com o discurso de que "a esperança venceu o medo", mas prometeu aos banqueiros e ao mercado financeiro, estabilidade monetária. Para realizar os avanços sociais prometidos na campanha (proposta real), prometeu estabilidade monetária (dissimulação).

Da mesma forma, o candidato José Serra (PSDB) diz que vai manter as políticas sociais do governo Lula (dissimulação), para realizar as privatizações iniciadas no governo FHC (proposta real).

3) Para ter êxito na conquista do poder, os partidos políticos trabalham com conceito de eficácia e eficiência. Para atingir a eficiência, é criada uma estrutura. A auto-organização e em alguns casos, a clandestinidade que marca mo nascimento do partido desaparecem a medida que a conquista do poder torna-se tangível. 

Os partidos políticos assumem características de uma grande empresa, com organograma, diretoria, gerência, sedes regionais, etc. A estrutura abriga, dentre outras coisas, uma hierarquia de dirigentes (burocratas) e dirigidos (filiados, militantes, etc.).

4) Os partidos políticos trabalham com o conceito de "desvinculação". A medida que o partido ganha proporções gigantescas e passa a abranger um número maior de pessoas em suas fileiras, as idéias iniciais que permearam sua criação vão desaparecendo. 

Os partidos independem da "massa" que o constituiu, se tornando ele mesmo auto-sustentável. Criam-se outras "fontes" de sustentação ideológica.

Assim, o PSDB, que é um partido de direita, tem em suas fileiras trabalhadores e não apenas empresários ou donos dos meios de produção. O PT, partido nascido na classe trabalhadora, recebe atualmente adesão de empresários e industriais.

5) A auto-sustentabilidade dos partidos políticos permitem que estes façam aliança com outros partidos, de proposta teoricamente opostas. Alianças inimagináveis, diga-se de passagem. 

Seria inimaginável uma aliança entre o PT, dos trabalhadores, e o PMDB, de José Sarney, criticado a exaustão por Lula no passado. De igual forma não se imaginaria o PSDB, de José Serra, recebendo apoio do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), fundado por Getúlio Vargas, principal opositor da direita que deu origem ao partido de Serra.

A tecnologia proporcionada pela internet e as redes sociais - Twitter, Facebook, Youtube - possibilitou a mudança do perfil do indivíduo.  Agora, ele é "prossumidor", ou seja, consumidor de informação e também produtor de conteúdo informativo - textos, vídeos, etc. 
Com isso, o indivíduo pode se organizar de forma autônoma, sem filiação a partido político. Em suma, auto-organização. 

O objetivo do texto não é criticar este ou aquele partido político, mas refletir sobre o real papel que eles desempenham na sociedade e como eles podem contribuir para levar as pessoas, em especial a classe dominada, a auto-organização e autogestão, ou se eles são apenas "extensões" da dominação burguesa.

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