6 de out de 2010

Ciro apoia Dilma!

Este blogueiro recomenda a leitura do livro "Campanha de rua: a cobertura jornalística de uma eleição presidencial". O livro foi escrito pelo jornalista Maurício Lara e o prefácio - pasmem! - é de Ricardo Noblat.

Um livro ótimo, lúcido e sincero com leitores e jornalistas, que mostra uma forma de se fazer política atualmente em desuso, por conta da evolução tecnológica dos meios de comunicação e com o advento da internet.

Ao mesmo tempo, a evolução tecnológica que aproximou pessoas e diminuiu fronteiras, também gerou eleitores e militantes "senis", presos às amarras da tecnologia ou céticos em relação ao seu uso.

Digo isso, pois o livro mostra com riqueza de detalhes, os desdobramentos da campanha política de 1989, a primeira depois da redemocratização do país. Embora o jornalista tenha se declarado a favor de Lula, sua análise dos fatos é objetiva e imparcial, de uma precisão ímpar.

Jornalismo, aliás, que o Estadão teme em fazer, quando demite - e depois volta atrás - uma analista do calibre de Maria Rita Kehl.

Este blogueiro torce para que Kehl publique suas análises em algum espaço da blogosfera: as portas estão abertas.

Vale ressaltar que na eleição de 89 não existia a internet e o meio ascendente na vida política do país era a Televisão. A Rede Globo, cujo império foi construído às sombras da ditadura, se utilizou de um expediente conhecido hoje por um número expressivo de telespectadores: manipulação de imagens.

A eleição, que foi para o segundo turno, só foi definida depois da edição do debate entre Lula e Collor, na Televisão.

Esse panorama geral é para mostrar que naquela época existia a militância, campanhas de rua e as alianças eram costuradas em torno de afinidades políticas, não somente de conveniências.

Leonel Brizola, candidato à presidência naquela ocasião, não titubeou em apoiar Lula, seu adversário no primeiro turno, mas que declarou apoio ao então candidato do PT, contra o "filhote da ditadura", termo usado para designar Fernando Collor.

Brizola foi o autor da frase: "Vocês vão ter que engolir o sapo barbudo".

Dia 17 agora é a data-limite para a candidata do Partido Verde, Marina Silva, declarar seu apoio neste segundo turno. Ela tem a sua disposição apoiar Dilma, candidato do PT, cujo governo está com 80% de aprovação, graças as políticas de distribuição de renda, diminuição da desigualdade social e maior participação do Estado na vida econômica, ou Serra, representante do modelo neoliberal implementado por Fernando Henrique Cardoso, de 1994 a 2002.

Enquanto a candidata não se decide, Ciro Gomes (PSB) preferiu ter a postura de Brizola: ficar pela esquerda e apoiar Dilma.

Ao contrário de Marina, Ciro Gomes já previa o "salto alto" de Lula e do PT nesse segundo turno.

- Ciro sabia que a mídia e José Serra não dariam trégua para a candidata do PT;

- Ciro sabia que a eleição não seria ganha no logo primeiro turno;

- Ciro sabia disso e muito mais, mas ninguém no PT lhe deu ouvidos.

Mesmo assim, apoia Dilma por convicção política, embora admita que sua participação no governo Lula, como Ministro das Cidades tenha sido importante;

- Ciro pode falar, sem medo, que foi Ministro no Governo Lula. José Serra não pode fazer o mesmo, pois tem medo de se assumir que foi Ministro do Planejamento e da Saúde no Governo FHC;

- Ciro pode dizer que FHC entregou para Lula um país sucateado, com 78% da dívida pública e com as empresas públicas, todas privatizadas. E Lula recuperou a economia brasileira e trouxe de volta a autoestima dos brasileiros;

- Ciro pode dizer que Serra foi o "pai" da lei do aborto, enquanto Ministro da Saúde em 1998 (clique aqui para ler a norma autorizando abortos). Dilma não é a favor do aborto, mas somente em casos de estupro. Para Dilma, o aborto é caso de saúde pública. A mulher que abortar não pode ser discriminada. Dilma não criou a Lei do Aborto. Quem criou foi José Serra, Ministro da Saúde de FHC;

- Ciro pode falar que Serra criticou Marina Silva no primeiro governo Lula. Foi a público dizer que Marina participou do mensalão. Falou "gatos e cachorros" da candidata verde - na época, filiada ao PT - e hoje clama por seu apoio;

- Ciro pode dizer que o vice de Serra é uma "bomba-relógio", e que ele tenta mais uma manobra para mudar de vice. Ele (Ciro) é autor da frase: "Serra na campanha é garantia de baixaria";

Fica a dica para a candidata do PV, que ainda não se assumiu: fazer como Ciro Gomes e deixar que a convicção política e de idéias fale mais alto que o simples interesse pessoal. As diretrizes históricas do partido são maiores que o fisiologismo de Gabeira e a ganância pró-mercado e privatista de Serra.

Eduardo Pessoa

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